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#geral

Dia Nacional da Consciência Negra e Ocupação da Memória

Em entrevista à São Judas, a educadora Mariana Carvalho reflete sobre desigualdades persistentes, celebra avanços e indica leituras para uma formação antirracista.

Celebrado no dia 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra marca a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, e reconhece a luta histórica dos povos negros contra a violência e o apagamento social. Instituída por lei, a data ultrapassa a dimensão simbólica e nos convida a observar como essas desigualdades persistem nas narrativas que moldam o imaginário do país.

Buscando reflexão mais profunda sobre a data, as alunas Yasmin Reis e Geovana Prado conversaram com a educadora, pesquisadora e voz ativa no debate sobre questões raciais, Mariana Carvalho. Em entrevista para o boletim da São Judas, Mariana destaca que a data funciona como um chamado à reflexão sobre o passado e, principalmente, sobre as desigualdades que ainda estruturam o presente.

“O primeiro ponto do embate é esse: de repensar o lugar que as pessoas pretas ocupam na sociedade e tentar superar essas desigualdades. O outro ponto é a celebração, porque a nossa história não é só de dor, não é só de tragédia.”

Nesse cenário, a nomeação de Ana Maria Gonçalves, autora do célebre "Um defeito de cor", para a 33ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, torna-se um gesto simbólico e potente. Ana Maria Gonçalves é a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na ABL, fundada há quase 130 anos por Machado de Assis, também um homem negro, cuja identidade foi historicamente silenciada.

Para Mariana, a data nos provoca a entender que não basta recordar a dor e a resistência: é necessário ocupar o centro da produção de memória, conhecimento e linguagem. É urgente discutir por que os povos negros ainda não alcançam o destaque que merecem na academia e em outros espaços de alta relevância, e como a representatividade, quando acontece, precisa ser ampliada e continuada.

“O fato da Ana Maria Gonçalves ocupar, agora, 130 anos depois da fundação, uma cadeira na ABL, demonstra que estamos avançando, que as nossas pautas estão sendo reconhecidas como legítimas, mas denuncia também o apagamento de toda uma intelectualidade que ficou marginalizada, escondida e apagada por conta do racismo. Então, espero que não tenham colocado uma mulher negra somente como uma cota, mas espero que tenha continuidade, que outros corpos pretos ocupem esse espaço de poder.”

É indispensável que tenhamos a sensibilidade de buscar entendimento sobre a história, cultura e contestações do movimento negro; verdadeiramente tomar consciência sobre os temas que permeiam sua existência no corpo social. À luz disso, a educadora Mariana Carvalho trouxe, em entrevista, recomendações da literatura negra para aprofundar a formação crítica e antirracista.

"Como indicação de leitura, vou deixar 'Olhos Negros', da Conceição Evaristo, que é impossível ler e sair da mesma forma. Deixo também 'Tornar-se Negro', da Nilza Santos. É um livro muito importante para pessoas negras que ocupam espaços predominantemente brancos e estão num momento inicial de descoberta das questões raciais. "Memórias da Plantação", da Grada Kilomba. É um livro muito importante, de leitura mais complexa, mas agrega muito. "Tudo Sobre o Amor", da Bell Hooks, que fala de algo que nos foi negado, que é o afeto, o amor em suas diferentes manifestações. E "Peles Negras, Máscaras Brancas", do Frans Fanon. Se tiver que começar por algum livro, indico começar por esse."

A reflexão que fica para a data é que ver corpos negros ocupando lugares de prestígio precisa deixar de ser novidade. Que num futuro próximo, possamos ver a produção negra literária, intelectual e de qualquer outro âmbito e natureza profissional conquistando cada vez mais destaque.

Por Yasmin Reis e Geovana Prado

Sobre o Comunicalab

Este material foi produzido pelas estudantes Yasmin  Reis, 5º semestre de Jornalismo, e Geovana Prado, 6º semestre de Publicidade e Propaganda. O Comunica Lab é uma iniciativa e projeto de extensão criado pelos alunos dos cursos de Comunicação, sob a coordenação da professora Lilia Horta. Com o objetivo de fomentar a produção de conteúdos para diversas áreas de comunicação da Universidade São Judas, o Comunica Lab atua como um verdadeiro laboratório prático. Dessa forma, proporciona aos alunos a oportunidade de explorar e experimentar diferentes formatos de mídia, como vídeos, textos e outros.